Nós, o banquete

Roger era canibal desde os vinte anos, quando descobriu o sabor esplendoroso de uma bela carne humana. Sua visita, Ana Lúcia, não tinha conhecimento disso, pois que recém chegara ao bairro e já fora logo aceitando o convite de jantar do novo vizinho, um homem alto, belo e solteiro. Eram dez da noite quando a campainha tocou. Roger recém havia desligado o forno. Pôs a carne já devidamente fatiada sobre a mesa e correu para atender a porta. Cumprimentaram-se, ambos ainda um tanto sem jeito, banhados numa atmosfera de flerte e novidade. Ana Lúcia elogiou o arroz com legumes e a carne de porco ao molho de laranja, sem jamais desconfiar que estivesse degustando os músculos de um homem chamado Elias Tobán, um chileno gordo, velho conhecido de Roger.

Conversaram sobre os arredores, sobre comidas e enfim sobre si mesmos.

— E então? O que realmente te traz para estas bandas? – perguntou Roger, com um olhar cheio de calor, terminando de engolir o naco fibroso. A mulher sorvia o vinho com rapidez.

— Ah, mudanças... Mudanças, sempre elas. Sempre fui uma mulher muito independente e bem vivida, uma metamorfose... uma metamorfose ambulante. Saí de casa muito cedo. Logo que me formei, coloquei minha pastinha debaixo do braço e me mandei pra São Paulo. Lá trabalhei em cinco agências. Anos depois fui pro Rio à convite de um amigo, diretor de uma firma de design, e hoje estou aqui.

— Tu és designer...

— É, agora largando um pouco essa função, finalmente. Estou vendo o que se pode tirar de veia administrativa deste corpinho. Entrei num negócio de webdesign, com dois amigos gaúchos que fiz no meu mestrado em Sampa.

— Ah, tu tens mestrado... Que legal. Então gostas de viagens e de estudo.

Ana sorriu, encabulada com o olhar bajulador do homem.

— Olha, nunca fui de muito estudo não. Mas sempre fui apaixonada pela minha área, e por isso não parei de me aprimorar. Acho importante, não é?

— Claro. Sem dúvida – Roger riu de um jeito forçado, desconcertante. O rosto perdido da sorridente Ana aguardava uma resposta – Desculpa, é que tu tens mesmo cara de designer. Impressionante.

— Ah, é, é? E qual seria o perfil, posso saber? Não, na verdade estou brincando, eu sei bem como é o estereótipo. Um visual moderno, mas sem exageros típicos de publicitários e artistas, mais clean. Uma independência exibida, um tipo de orgulho diferente, adorando falar de suas mudanças. Ah, claro, um cabelo não muito longo, repicadinho, que nem o meu...

Caíram na gargalhada, cada vez mais à vontade. Depois houve um breve silêncio de olhares oblíquos, rompido por Roger:

— Sabe, eu tenho um lado artístico também.

— Ah, tem? Pois devo te dizer que assim, de cara, você aparenta um advogado, administrador ou coisa do tipo. Que foi? Estou falando sério! Não que você pareça muito certinho, não tem esse ar não. Mas, a julgar pela sua casa, pelas suas decorações, até mesmo pelas descrições que fez dos teus vizinhos, parece um homem do tipo “clássico”, se isso não te ofende.

— De forma alguma. Considero até um elogio.

— Ah, mas você sabe, eu sou designer... Posso não ter a visão mais neutra de “estética pessoal” – disse a moça, com um riso cada vez mais solto, o vinho aos poucos tomando-lhe as rédeas – sabe quantas vezes aceitei um simples jantar a sós como programa para a noite? Uma vez, com um ex lá de Belo Horizonte.

— Ele era clássico?

— Não exatamente, ele era conservador mesmo. Carola, reacionário. Um porre em determinadas ocasiões. Mas era uma gracinha e tinha um coração enorme.

— Tu não pareces ser o tipo de mulher que dê muita bola para algo como o espírito político. Eu particularmente louvo isso. Por mais idealistas que sejamos, no fim das contas o que sempre nos importa é a sensação primária das coisas, do mundo, das pessoas.

— Ah, na verdade, eu sou sim idealista. Mas, se formos o tempo todo tão exigentes, ou tão profundos nas nossas críticas, por mais que elas sejam verdadeiras, nos cansaremos rapidinho desse mundo – a moça apoiou o queixo sobre o punho, contemplando a grande janela da sala. Entre as cortinas amarronzadas, podia ver o reflexo da lua nas folhas das árvores.

Roger observava atentamente cada movimento do rosto da morena. A língua se mexia dentro da boca cerrada, sedenta. Seus olhares atentos se chocaram mais uma vez. A mulher prosseguiu:

— Talvez eu tenha encontrado um jeito de ser idealista na minha especialidade. Ah, já faz tempo isso. Confesso que hoje em dia dedico muito menos atenção à arte em si.

— Ora, que pena. Engraçado que quanto mais passa o tempo, mais me admira a beleza, a qualidade estética, tanto da natureza de Deus (perdoe-me se você for atéia) – ao qual ela fez uma deferência afetada – quanto da natureza do homem. Às vezes me sinto uma criança diante de um quadro, de um filme, até de uma música. Da mesma forma que os gregos, pra mim o justo é exatamente o que é belo. Por isso, no fim, tu tens muita razão quando me chama de clássico. Os costumes e a maneira de se lidar com o mundo nada mais são do que um reflexo da visão estética que a pessoa tem, não achas? Jamais apreciei Picasso e amo as obras de Rembrandt. Não tenho interesse algum em Nova York e meu sonho é morar em cidades como Glasgow ou Roma.

— Você tem razão. Isso basta pra se entender as atitudes de uma pessoa. Meu Deus, que curiosidade! Afinal, o que você faz da vida, homem?

Roger estufou o peito com um olhar blasé, para ver se arrancava-lhe mais risos.

— Sou, ou fui fotógrafo – ela arregalou os olhos – Bem, há muito tempo que não pratico a fotografia como deveria, e agora tenho pensado até em me dedicar à literatura, tentando me concentrar como posso. Porém, ainda amo a fotografia acima de tudo.

— Nossa, e eu arriscando até advogado. Agora entendo plenamente o papo sobre arte. Juro que você não parece escritor, que dirá fotógrafo. Estes não costumam ter um cabelo ousado? Usar colete?

— E um brinquinho.

Riram muito, o entusiasmo dela ainda muito mais efusivo. As longas pernas já se moviam com nervosismo debaixo da mesa, bagunçando a seda negra. Roger se levantou da cadeira estofada, avisando que iria pegar mais uma garrafa de vinho, e Ana Lúcia já imaginou o perigo que trariam mais duas ou três taças. Contudo, ela estava estranhamente mais do que disposta ao que quer que viesse daquele homem, que se movia e caminhava com a impavidez do bronze esculpido. Contemplou demoradamente as pernas, as costas e as nádegas de Roger conforme ele se dirigia ao bar ao lado da cozinha. Piscou os olhos com rapidez, surpresa, quando se deu conta de estar mordendo o lábio inferior. Achou graça. Há muito tempo não se sentia tão jovem, tão solta de amarras. Talvez o tempo vivido nas outras capitais houvesse lapidado uma rocha distinta. Porto Alegre era terreno novo, e o tal fotógrafo-escritor, com apenas uma hora de conversa, se mostrava totalmente diferente de todos os homens que conhecera. O mistério tomava cores da irresponsabilidade sem culpa.

Roger colocava o vinho sobre o bar, sacando o abridor, enquanto outros pensamentos borbulhavam em sua mente.

— Que tapado! Esqueci da sobremesa! – bradou, contemplando os pés inquietos de Ana Lúcia; do ângulo de Roger, eles margeavam o pilar do balcão como serpentes. Do ângulo de Ana Lúcia, o calor da luz do bar incidia sobre as mãos fortes de Roger.

— Ah, não se importe com isso! Mas que eu já estou sentindo falta de um docinho, isso estou. Adoro chocolate, viu?

A voz vacilante da morena soava-lhe deliciosa. Um brilho cor de vinho luziu nos dentes do homem.

— Precisamente o que eu tenho aqui – um minuto depois de algum ruído na cozinha, Roger voltava para a mesa ostentando o vinho e uma taça larga de alumínio, cheia de morangos cobertos por uma calda grossa de chocolate, e entre os dedos duas barrinhas de chocolate – Vê o que tenho aqui. Será que saciamos teu desejo?

Ana Lúcia arregalou os olhos, segurando o riso sem graça.

— Nossa. Com certeza. Hm, adoro morango, há muito tempo não comia. Está doce que é uma maravilha! Insisto na sua classe. Sigo me perguntando o que há de excêntrico em você.

Roger arqueou as sombrancelhas e pareceu relaxar-se com ainda mais vigor, como se finalmente tivesse surgido a deixa esperada. Ana Lúcia lambia o chocolate das pontas dos dedos.

— Todos temos excentricidades – disse Roger – Na maioria dos casos, o superego simplesmente dá algumas concessões, cheias de capricho. Até o ponto em que nos vejamos num conflito de personalidade. Ou de simples atitudes. Dentro dos costumes desta sociedade, claro.

— Ou talvez a id não seja poderosa o suficiente. Chocolate com psicanálise? – suspirou Ana Lúcia, com um fastio repentino, extremamente afetado. Estava brincando, ou queria parecer estar brincando. Roger não; ele era resoluto no prosseguimento do assunto e a observava cada vez mais interessado.

— Nosso desejo mais profundo nunca é poderoso demais. É tudo uma questão de equilíbrio de forças dentro de nossas mentes. Até que ponto a vontade é sincera, e até que ponto a sinceridade é arbitrária? – Roger fez uma pausa e, ainda com a taça de vinho na mão, se inclinou lentamente sobre a mesa, adentrando os olhos reluzentes da morena – Eu, por exemplo, tenho certeza de que tua mais pura vontade neste momento é ir pra cama comigo – falou, peremptório, silencioso, quase chiando.

Não houve reação. Os globos de Ana Lúcia faiscavam como se a mesa estivesse tomada por velas, e uma gota de ansiedade (ou de medo, não podia distingüir) percorreu-lhe o rosto. O sorriso não lhe deixava os lábios úmidos. Que homem era aquele? As bocas vacilaram a poucos centímetros de distância, e um vapor emanou entre as peles saturadas da atmosfera sensualíssima. Roger enfim recuou, e Ana se segurou como pôde para não morder o lábio, enquanto um vento frio percorria sua espinha. Os olhos não se desgrudavam. Nunca um homem estivera tão perto de sua boca sem tocá-la. Que fenômeno se passava? Um espasmo da última conversa ainda exalou dos lábios trêmulos de Ana:

— Sem dúvida, ainda há um universo de coisas a se descobrir em ti...

Roger bebia o vinho aos poucos, degustando-o de uma forma virtuosa, num espírito contido, quase franciscano.

— Então perderíamos toda a graça de nosso jantar, ou mesmo de nossas vidas.

Ana via agora um estilo que nascia de lugares ainda mais profundos do que pensara. E o homem mais do que nunca sabia estar no poder. Isto era fatal. Mas não podia evitar.

— Quero te descobrir tanto quanto tu queres a mim. Não é assim que vivemos? Não são as expectativas que nos fazem seguir adiante? Muitas vezes não sabemos por que temos medo de determinadas coisas, ou nojo, ou o que quer que seja. Se eu te perguntasse agora: “tu aceitarias experimentar coisas que jamais imaginaste que experimentarias?”, o que é que tu responderias?

Ana Lúcia jogou-se no encosto da cadeira novamente. O seu sorriso ficava cada vez mais irresoluto, na mesma proporção do brilho de curiosidade em seus olhos. O jogo da dúvida, da sedução e da filosofia do segredo se embaralhavam de uma forma tão prazerosa quanto o próprio chocolate que restava sobre a língua. Homens e mais homens duros e sem sentido trespassaram a sua mente, como num fundo opaco. Sem hesitar, a morena derramou mais vinho para dentro da taça e bebeu tudo num só movimento, soltando um estalo de alívio no ar, saciada. A cabeça começava a balançar mesmo que parada, e as luzes da sala e do bar foram ficando mais brilhantes. A boca de Roger era um fio vermelho em meio ao paraíso dourado.

— O que é que tu responderias? – insistiu ele, segurando com leveza a mão dela, a expressão dura do rosto velando uma grande expectativa pela resposta.

— Eu não tenho nada a perder, tenho?

— Jamais. Só temos a perder quando nos arrependemos do que não aconteceu.

— Tem razão. Eu quero.

Roger abriu um largo sorriso, o coração bombeando sangue por detrás do véu de segurança. Estava em êxtase. Aproximaram seus rostos e estalaram os lábios, Roger recuando antes que o beijo se aprofundasse, como tanto Ana Lúcia esperava. Roger teve dó da sua expressão carente e ao mesmo tempo insaciável, mas é que os objetivos eram por demais superiores àqueles. Alguma forma de compensação pela vida subsistia na sua mente, alguma forma de doutrina que lhe apetecia transmitir a uma pessoa que num instante lhe parecia tão íntima. Roger tivera poucos amigos na vida, e alguns deles acabaram como banquete. Isso era extremamente significativo: ele tinha dado parte de uma antiga amizade sua para uma mulher, ela tinha compartilhado de seu prazer e de sua gula, ela tinha engolido a mesma alma que a sua. Bastava que ela aceitasse isso da mesma forma.

Roger levantou-se, puxando Ana Lúcia pela mão. Enredada pelo álcool, ela tropeçou algumas vezes nas sandálias, pedindo desculpas coradas ao homem, que agora mantinha uma postura mais séria. Chegaram à cozinha, e Roger abriu a geladeira, enquanto Ana sentava-se diante da mesa de acrílico, perdida, um pequeno arrependimento já despontando por entre a confusão na sua cabeça. O homem retirou um pote branco de plástico com uma tampa quadriculada vermelha e o pousou no meio da mesa, observando os olhos cintilantes da morena. Abriu o pote, e ali havia pequeninos filetes de presunto. O olhar de “o que significa isso” de Ana logo foi preenchido pela intervenção um tanto nervosa de Roger:

— Não, isso não é presunto comum – mentiu, porque haviam custado três e cinquenta na venda da esquina – Me escuta: quantas dietas uma pessoa tenta a vida inteira, Ana? Quantas vezes te falaram sobre o nojo de moluscos, de cérebro de ovelha, de língua de vaca, ora, se tem gente até com nojo de cebola? Qual é o valor destas coisas? Que são esses costumes, que variam muito além do que se pensa? Tu não sabes mais o que é isto que tem neste pote, e isso te assusta. Não me olha desse jeito, eu sei que o momento não é pra isso, mas pra mim é muito importante, Ana. Tu não sabes o quanto eu busco ensinar certas coisas. Tu não tens idéia. Eu vejo nos teus olhos que tu podes me compreender, eu vi antes e vejo agora. Vamos, Ana, por que tu não provas este minúsculo pedacinho? Só para sentir o gosto, é só o que eu te peço. Por que recuas? Do que tens medo?

Ela o encarava incrédula.

— Tu tens medo é do desconhecido. O que eu tenho de excêntrico é isto, tu achas? Te propor uma situação nova, algo pelo qual tu nunca passaste antes na tua vida? Eu sei que tu és uma mulher preparada pras coisas, senão nem estaríamos aqui agora. Tu, como tantas outras pessoas, não sabes o que é o verdadeiro medo, Ana.

Ana Lúcia se afastou de vez, recuando aos tropeços até a parede oposta. A imagem obscura de Roger crescera assustadoramente diante de si. As pernas da morena continuavam suando por debaixo da saia, só que agora por motivos bem distintos. Não sabia mais o que estava experimentando, e já receava até mesmo por sua vida. Gritou:

— Afinal, o que é que você quer que eu prove?!

Roger fez sinal de silêncio, a paciência visivelmente se esvaindo pelos olhos escancarados. Contido, retirou um dos pedacinhos de presunto do pote e o ofereceu na ponta dos dedos à mulher.

— Eu só quero que tu proves isto. Só quero que tu proves o desconhecido. Tu és capaz de lidar com o que não conheces? Não me parece. Enfim... mais do que pertinente agora é te perguntar o que é que vale mais para ti nas coisas do mundo: o valor da essência ou o valor do nome? Esta é a pergunta de todas as perguntas, Ana.

Uma lágrima rolou pelo rosto dela. Ninguém esperava aquilo. Roger fechou os olhos, decepcionado, balançando a cabeça, relembrando toda a conversa que tiveram.

— Me entristece muito o ato da revelação, a entrega de algo tão estigmatizado a ponto de te afastar da verdade sensitiva. Mas é assim que tem que ser. Isto é carne humana. Carne da tua carne, Ana.

Todas as terminações nervosas do corpo já tão ardente de Ana tilintaram numa seqüência de descargas de terror e repulsa. Desequilibrada, ela foi ao chão, contemplando um Roger ainda maior e mais ameaçador. Num átimo, todo o desejo que durante a janta havia concentrado, carregado pela ânsia do desconhecido e pelo buquê do vinho francês, dissipou-se numa nuvem de vapor gelado de arrependimento e sensação de perigo fatal e imediato. O homem alto, belo, solteiro e inteligente tinha um prazer, uma admiração por carne humana, e isto ia contra todos os seus princípios. Como podia enganar-se tanto com uma pessoa, já havia acontecido antes, mas não de forma tão rápida.

Roger observava com tristeza a morena correr desajeitada até a porta. A imagem dela mudara de forma espantosa. O vestido estava manchado, os cabelos bagunçados, as pernas lanhadas pela ação mais pura da ignorância, e não havia algo mais repulsivo para Roger do que a ignorância e seu imenso poder. Vida triste tinha um homem que via-se obrigado a deleitar-se com o proibido e o desconhecido. Contudo, ambos formavam juntos uma imagem tão excêntrica (era essa a palavra correta?), que por suas próprias condicionalidades justificavam o prazer do canibal. Roger invejava as tribos mais primitivas. Sabia no fundo que seu desejo não era tão puro quanto o deles. Tinha conhecimento de que era ao mesmo tempo diferente e hipócrita quando acusava os costumes, pois que por eles agia como agia. Tanto que não acabava agora com a vida de um ser humano pela simples gula, e sim para manter sua liberdade. “Eu não tenho salvação”, pensava repetidamente nos dias seguintes, cabisbaixo. “Ou são eles que não têm”.



Era uma linda noite de Setembro quando jantava à mesa com seus amigos de futebol. Dificilmente trocavam elogios tão afetados com Roger, mas não paravam de louvar a bela carne de porco. O homem ficou muito orgulhoso, ainda mais por que não esperava que o corpo tão esbelto de Ana Lúcia rendesse lá muito sabor.


Renan Santos

Diário de um morto vivo (Parte II)

Meu primeiro assassinato

O sangue do meu "senhor" - assim é chamado, segundo a milenar tradição dos mortos vivos, pelo vampiro que foi criado ao vampiro que o criou - era e é para mim uma necessidade e uma dádiva da qual eu era o mais dependente dos viciados, o mais escravizado dos escravos.

Ainda assim, ele tirou seu braço da minha boca e impediu que eu continuasse minha alimentação, muito antes de eu estar saciado. Não havia bebido muito mais do que o necessário para ter passado pela transformação. Como resultado, eu me encontrava desesperadamente faminto por sangue, e ele sabia muito bem disso, pois, conforme ele mesmo me disse depois, a primeira fome de um vampiro recém criado é a mais forte de todas.

Mas Gerard, em sua generosidade, ou segundo o seu próprio conceito deformado e cínico de generosidade, não me deixara de todo desamparado. Ele me pediu para segui-lo, pois havia preparado uma surpresa para mim. E assim eu fiz, com a inocência e a confiança de uma criança pequena que acompanha a sua mãe.

Saímos de minha residência e passamos por três quarteirões até chegarmos a um beco escuro, onde costumavam ficar mendigos, vagabundos e outros elementos marginalizados pela sociedade. À noite, porém, era evitada até mesmo por esses elementos. Andamos pelo beco, "mal-assombrado", diriam, não sem razão, até chegarmos a um homem, um pobre diabo que eu não podia ter certeza se era um mendigo ou não.

Ele estava deitado e imobilizado no chão, amarrado e amordaçado. Ao nos ver, ou ver os nossos vultos, já que a claridade era escassa, ele começou a gemer, se debater, e a nos olhar como se implorasse por nossa misericórdia. Gerard olhou pra mim, sorriu e disse: "Vamos, minha criança. Hora de satisfazer sua fome."

Ao ouvir tais palavras, olhei para o homem e o seu olhar era de um completo desespero. Na verdade, seus olhos pareciam pular para fora das órbitas ao sentir a morte cortejá-lo tão de perto. O que eu estava prestes a fazer era horrível, mas na condição em que eu estava, creio que se fosse até um parente próximo no lugar daquele pobre homem, eu teria feito do mesmo jeito.

Sem pensar muito, senti minhas presas crescerem afiadas, obedecendo ao meu instinto assassino. A essa hora, o homem se debatia com toda a força e tentava gritar. Em uma fração de segundos, eu já estava em seu pescoço.

O deleite que eu obtinha através daquele sacrifício fazia eu esquecer todos os dilemas morais e éticos da prática daquele crime. Havia um prazer demoníaco em sentir o seu sangue fluir para dentro de mim, e mesmo ao sentir o coração, antes pulsando descontrolado devido ao pavor, ir reduzindo sua intensidade gradativamente, até cessar totalmente sua atividade.

Quando terminei meu banquete, ou, mais apropriadamente chamando, minha orgia, tinha em meus braços um cadáver que estava no mesmo estado em que Gerard anteriormente havia me deixado.

— Muito bem, minha criança! - era Gerard, bastante satisfeito em assistir minha degeneração - Estou vendo que eu não estava errado a seu respeito. Você será um ótimo vampiro! Formidável!

Eu o olhei e meu semblante transmitia o que eu sentia, finalizado o meu banquete: um misto de profunda decepção e perplexidade.

— John? John, meu amado John! Nós somos o que somos, somos predadores, estamos no topo da cadeia alimentar. Sentimentos como a compaixão não são mais adequados a nós. Deve, por acaso, o predador sentir compaixão por sua presa? Se os humanos não querem morrer, que não cruzem o nosso caminho! Você não é mais humano, portanto não é mais conveniente que fique preso a ideias humanitárias. John, meu querido, vou lhe ensinar tudo o que você precisa saber para ser um bom vampiro. Seremos companheiros por toda a eternidade!

Pensei em dizer algo como "Fico feliz por você ter deixado eu decidir o meu próprio destino", mas contive a provocação em meu pensamento, ponderando não ser prudente verbalizá-la. Limitei-me a sorrir, exibindo uma falsa complacência, da qual Gerard não tinha motivos para suspeitar.

Mas ele havia se enganado a meu respeito. Eu não era o predador frio e desumano que ele havia vislumbrado, a partir da leitura de meus livros que, reconheço, possuem um considerável apelo macabro. Ao contrário, a imagem daquele homem indefeso e apavorado que lutava desesperadamente pela vida, e que mesmo assim eu assassinei covardemente, vem me assombrar todas as noites.

Por quanto tempo terei que conviver com essa lembrança? Temo que nem o passar dos anos e mesmo séculos poderá apagá-la.

Josué

Diário de um morto vivo - parte 1

Londres, março de 1880

O que eu me tornei

Faz exatamente dois meses que minha vida tornou-se um drama quixotesco de dimensões surreais. Não que ela antes tenha sido plenamente satisfatória. Assim é a vida dos seres humanos: ilhas de felicidade em meio a oceanos de sofrimento e tristeza.

Assim era a minha vida também. Há dois meses, no entanto, eu fui definitivamente apartado da condição de ser humano. Sim, é isso, é essa a verdade, por mais inacreditável que
possa parecer. Agora não sou mais um homem: sou um monstro morto-vivo bebedor de sangue ou, como é mais popularmente conhecido, um vampiro.

Tal fato consumado encerra em si mesmo conseqüências devastadoras. Se os vampiros, que até o dia de minha derradeira transformação eu julgava serem meras lendas e superstições de época pretéritas, são reais, o que dizer de outras criaturas igualmente dadas como mitológicas? O que dizer a respeito das bruxas e lobisomens? E que tal anjos e demônios? Fadas, duendes? Já não me espantaria mais descobrir que tudo isso é a mais pura realidade.



Sobre minha transformação

Gerard. Apenas Gerard. Foi assim que se apresentou a mim aquele que me jogou, sem aviso prévio e sem pedir minha opinião, no trágico e absurdo mundo dos predadores noturnos, das bestas sobrenaturais que coabitam o mundo junto às suas vítimas humanas, tais quais lobos em pele de cordeiro.

"Mas por quê? Por que eu?" - foi a primeira pergunta que me veio à mente, logo depois de ter morrido como humano e renascido como um monstro. Eu havia acabado de chegar em minha casa, na pequena cidade universitária de Osford, depois de ter passado a noite bebendo na taberna. Eu me encontrava naquele familiar estado de euforia que somente o álcool pode proporcionar. Não fazia quinze minutos que havia chegado e, estando deitado em meu leito sentindo a cabeça rodar, eis que ouço alguém bater à minha porta.

Cambaleando, me levanto para atender, e talvez por me encontrar sob efeito da embriaguez, não atino com o perigo de receber visitas à noite. Olhando pela janela, reconheci o semblante de um dos boêmios com quem havia estado na taberna, e convenci-me de que não havia motivo para maiores temores. Abri a porta e saudei meu visitante noturno.

— Pois não?

— John Brandom Blair? - responde ele.

— Sim. Esse é o meu nome. Perdoe-me, mas o seu é...?

— Gerard.

— Está certo... Gerard. A que devo sua visita?

— Estive com você na taberna, e...

— Sim, eu me lembro de ter te visto por lá.

— Eu sou um grande admirador da sua obra. Eu tenho todos os seus livros... posso te dizer sem medo que você é um grande escritor e um grande artista. Na verdade, creio eu, o melhor escritor que há nessa ilha.

— Muito obrigado... devo dizer que seus elogios muito me agradam. Porém, devo dizer também que você me tem em demasiada alta conta, e que não sou, portanto, merecedor de tanta deferência. Sou apenas um escritor mediano, jamais chegarei ao nível de um dos grandes como Byron.E nesse momento em particular, sou apenas um bêbado...

— Sua genialidade precisa ser preservada pra sempre, e é por isso que eu estou aqui...

— Bem... creio que, quanto a isso, não está ao meu alcance, nem ao seu, nem ao de mais ninguém. O julgamento que a posteridade fará de mim e de minha obra, se é que farão algum, é assunto apenas para eles.

— John... eu lhe darei toda a eternidade, dessa forma seu talento será preservado para sempre. A oferta que eu lhe faço é a mais generosa que alguém algum dia poderia lhe fazer... Por que não me deixa entrar pra que eu lhe explique com mais detalhes?

Em condições normais, talvez eu o teria chamado de louco e o ameaçado caso não fosse embora. Mas a embriaguez, aliado a um estranho e irresistível magnetismo pessoal que emanava de sua personalidade, e que mais tarde eu descobri ser um dos poderes dos vampiros, fez minhas resistências cederem e eu acabei o convidando pra entrar àquela hora da noite, como se fosse ele um velho amigo e não um estranho que eu acabara de conhecer.

Ele entrou, e eu fechei a porta. Eu caminhava à frente, e ele logo atrás de mim. Eu pretendia acender a lareira para sentarmo-nos na sala e conversar sobre o que lá ele queria me propor. Antes disso, ele me envolveu com um dos braços, imobilizando-me, e com o outro tapou minha boca. Tentei gritar e me debater, mas já era tarde. Ele aproximou sua boca de meu pescoço, e com seus caninos afiados que haviam acabado de se pronunciar, me mordeu bem na veia jugular.

Enquanto o meu sangue jorrava em sua boca e ele o engolia com uma voracidade que somente um monstro poderia ter, o meu corpo e minha alma encontravam-se numa lassidão cada vez maior, como se a morte nada mais fosse do que mergulhar num sono profundo.

Quando ele terminou o que estava fazendo, meu corpo era um cadáver sem uma gota de sangue e minha alma se encontrava num profundo sentimento de paz, preparando-se para entrar no outro mundo.

Eis então que eu me sinto ser violentamente trazido de volta para dentro de meu corpo, acompanhado por uma terrível sensação de desespero frente à presença de algo demoníaco. Quando me dou por mim, estou sugando o sangue diretamente do pulso de Gerard. Pela primeira vez eu sentia o que era, para um vampiro, a experiência de beber sangue.

Seria tão difícil explicar isso para alguém que nunca teve essa experiência quanto seria explicar para um cego de nascença o que é ver. Aquilo consistia de uma experiência extremamente mística e sensual, e acima de tudo, o ato de saciar uma fome avassaladora. Eu compreendera, naquele momento, que enquanto estivesse naquela condição amaldiçoada, o sangue seria muito mais do que o análogo à satisfação de uma necessidade fisiológica num organismo vivo. Aquilo era, e é, uma necessidade maior que todas as necessidades dos seres vivos juntas, e um vício, uma compulsão, da qual nem o mais resoluto dos homens, nem a mais inabalável das vontades poderia resistir.

Foi então que ecoou em minha mente aquela pergunta: "Por quê?" Mas ela não se dirigia ao monstro que havia acabado de me transformar em outro monstro. Ela se dirigia ao Todo-Poderoso, que agora, tal qual o próprio demônio, eu tinha certeza ser bastante real.

Josué

Uma história em um trem

— Eu sei que você a matou – disse Evelyn, com um sorriso apertado.

Foster tremera, seu mundo parecendo chacoalhar junto com o trem. Há pouco haviam se conhecido; ela, que se sentara na poltrona vazia bem à sua frente e puxara uma longa, agradável e suave conversa sobre vinhos e férias, agora falava de forma extremamente direta e seca, afirmando coisa séria.

— Como é que é? – perguntou ele, fechando o cenho, como se tivesse recém acordado de um sono profundo.

— Você não me engana. Eu sei que a matou.

O sorriso macabro e genuinamente feminino ficara ainda mais delineado. As sombras no seu rosto ganhavam em intensidade. Foster tremeu mais uma vez, e seus batimentos pareceram duplicar. Um suor nervoso brotou rapidamente do rosto, oscilando desde a sombra sob o chapéu até o pescoço pulsante. Haviam bastado seis singelas palavras para que as coisas tomassem outro sentido. Bastara uma pequena frase para que a bela, agradável e desconhecida Evelyn se tornasse imediatamente o seu pior medo.

Ela era alta e loira, os cabelos cacheados, atirados por sobre o tronco esbelto, os olhos azuis como o mar. O rosto ganhava ainda mais cores com a luz do crepúsculo adentrando o vagão, num jogo de iluminação compensada, poética, vagando entre o amarelo opaco de sobre as poltronas e o dourado puro vindo da paisagem lá fora. Foster lembrara-se de já tê-la visto na estação, embarcando, ainda na Filadélfia. Como uma garça, ela carregava no porte esguio o seu longo e elegante vestido azul claro, caminhando com leveza, sem malas, sem nada. Uma hora depois ela se aproximara de Foster assim que ele havia acordado de um cochilo leve mas problemático, e só aquele semblante angelical poderia interrompê-lo de forma pacífica. Cordial e extremamente educada, ela se apresentou, reclamando do tédio em viajar sozinha, e logo começaram a conversar. Não que Foster conseguisse prestar muita atenção a exatamente que safras de uvas o ex-sogro de Evelyn cultivara lá na Califórnia e a precisamente que cidades canadenses ela havia viajado no último ano, mas o homem se interessara muito. Pintava sua visão com a beleza misteriosa dela e mergulhava cada vez mais no azul hipnotizante daqueles olhos, até que foi desperto do transe.

Antes que Evelyn despejasse a acusação ex nihilo, a conversa havia chegado a um raro momento de silêncio, Foster vislumbrando o outono da costa leste com um sorriso tímido. Já estivera bem mais nervoso logo que ela havia cruzado as pernas ao sentar na poltrona à sua frente. Por isso, agora ele tinha a impressão de que a mulher estivera o tempo todo lhe amansando para que seu coração recebesse o baque com muito mais impacto, pois que totalmente despreparado.

— Não me pergunte porque, Foster. Mas eu sei – continuou ela, aos poucos o sorriso cínico dando lugar à uma expressão cerradíssima, a pior que Foster vira desde que tomara seu último copo sujo de uísque no Holy Water, ainda lá no centro escuro da Filadélfia.

E de fato ele não perguntou por quê. Ele não queria saber. Só lhe importava agora o que faria com aquela mulher. Foster é quem sorria agora, as bochechas tremendo no mais puro nervosismo. Ele sabia de sua fraqueza, mas precisava impor respeito imediatamente.

— Você sabe, meu amor... estivesse eu sentado na poltrona da minha casinha ainda, lá atrás, há horas de viagem, pensaria que isso é algum tipo de alucinação. Provavelmente estaria encarando agora o meu belo amigo Chivas, culpando-o mais uma vez pelos meus problemas. Normalmente eu rio quando vejo essas coisas, entende. Bom, eu não pareço estar rindo e nem tenho a porra de um copo cheio de gelo na minha mão. Então, se não estou louco, você é quem está.

Evelyn riu, baixinho, levando a mão delicada até a boca vermelha. As luvas brancas de seda fina pareciam armas de graça ilusora, dançando em frente ao colo e ao rosto.

— Nós dois sabemos disso, Foster. Você não tem porque ficar nervoso.

Ele se curvou por sobre a mesinha que os separava, vermelho e tremendo.

— Você não sabe porra nenhuma de mim, sua... – iria soltar os pulmões não fosse a aproximação repentina do garçom, que trazia uma bandeja com vinho e taças.

— Algum problema, senhor? – perguntou, notando o total desconforto de Foster, que suava debaixo do capote pardo. Foster cerrou os lábios e foi se acomodando novamente na poltrona, sem jeito. Balançou a cabeça. O garçom olhou desconfiado para a beleza magnificente da mulher – Bem, peço perdão; gostaria de saber se os senhores aceitam uma taça de vinho tinto?

Foster fez sinal negativo mais uma vez, sem paciência alguma. Retirou com veemência o chapéu e acomodou-o no colo. Encarou o carpete vermelho do chão e viu os pés sensuais de Evelyn aterrisarem detrás das patas da mesinha, os grandes saltos de bico fino maculando o veludo do tapete.

— Oh, é o nosso bom Cabernet? – falou ela, com uma jovialidade descarada.

— Sim, senhorita. Safra de 49.

— Maravilha. Sirva-me uma taça, por favor – o garçou inclinou-se para servi-la – o Cabernet é o rei das uvas roxas. Já lhe contei como são as uvas roxas lá na terra do meu pai, Foster? Nos terroirs além da costa, o sol e a chuva convivem de forma interessante, muito harmônica. Os ventos do Pacífico ajudam a refrescar as uvas, e elas adquirem uma cor impressionante. É um roxo orgânico, diferente desse roxo que vemos nos tecidos, é algo brilhante, respirando vida, a mais pura vida.

Foster nutria agora muito ódio pela falsidade que sentia emanar de voz tão suave. O que fora oculto e antes produto de uma mente eternamente desconfiada era no momento um grito de falsidade em cada sílaba, em cada pausa, em cada tom. Foster ergueu o olhar e contemplou os lábios que se molhavam na borda da taça de cristal. Mais vermelhos do que sempre, eles agora brilhavam sob a luz do vagão, enquanto o Sol finalmente abandonava o trem naquele início de noite. O garçom calmamente se retirou.

— Delicioso. Mas eu sinto por aquelas uvas sacrificadas. Eu realmente sinto. Deveríamos oferecer o sangue dessas uvas em sua honra.

Evelyn o fitava com olhos ainda mais penetrantes, como que contornados à bico de pena. A boca se tornara substancial, os cantos se erguendo vagarosamente para formar um novo tipo de sorriso. Uma pequena língua molhada de vinho se projetou para fora, viajando de um lado ao outro por entre a carne vermelha. Foster a encarava em transe, inconsciente. Ela segurava a taça diante do pescoço, como se fosse entorná-la novamente a qualquer momento.

— Você é fraco. Você não pode comigo. Não percebe isso? Eu não sou como Dorothy, Foster.

— Como diabos você conhece Dorothy? Eu nunca vi você na minha vida, demônio. Como você sabe de mim?

— Isso não importa, não é? – ela agora balançava a taça em pequeninos círculos, o líquido escuro dançando como sangue no cristal. Inspirou o buquê profundamente, quase ao nível do êxtase. Foster sentiu um repentino cheiro de ferrugem. O que importa é o que eu sei. E eu sei o suficiente.

— Você me seguiu. Você está neste trem unicamente pra me ameaçar. Por que você não falou desde o início o que tinha pra falar, por que está me enrolando desse jeito, sua vagabunda? E pare de mexer a porra dessa taça!

Evelyn parou, levando aos lábios o dedo indicador da outra mão, pedindo a Foster que fizesse silêncio, e ele baixou a guarda, voltando a se atirar na poltrona. Coçou fervorosamente a lateral grisalha da cabeça enquanto com a outra mão começava a puxar desajeitado alguns botões do capote. Forçou abruptamente a gravata, afrouxando a gola, e suspirou. A penumbra lá fora se preparava para se transformar na escuridão da noite. Algumas luzes vacilavam entre o contorno das colinas. Árvores disformes zuniam diante da janela. Conformado, Foster fez a pergunta inescapável, com os olhos no mundo exterior, enquanto a mente ainda trafegava pelo interior do trem, sem saída:

— O que você quer?

— Você é um bom homem, Foster. Não se desgrace pelo que fez – Evelyn bebeu mais um pouco do vinho, calma como pouca coisa naquele momento. Os trilhos retumbavam vez ou outra debaixo dos pés – Você estava alterado, fora de si. Além disso, nada anda muito bem pra você há muito tempo, não é mesmo? Todos nós esperamos que aquelas pessoas que nos são próximas venham a nos dar um ombro para enxugarmos nossas lágrimas. Com você não foi assim, não é mesmo, Foster?

Não fosse pela voz branda e estranhamente sensual, Foster sentiria ouvir a si mesmo, em mais um de seus monólogos intermináveis. Agora já se passavam quatro horas sem tocar os lábios no álcool. Não estava louco, sabia disso. Com as mãos enfiadas num dos tantos bolsos de seu capote, afundava sob seus próprios tecidos no canto da janela, encarando os lábios molhados de Evelyn se mexerem com uma segurança espantosa. O olhar dela é que mudara. As sombrancelhas haviam caído um pouco, num esboço de piedade.

— Você e Dorothy juntos eram incríveis. Havia poesia em seus olhos, havia um amor incomensurável, havia admiração. Porém, de algum jeito as coisas tinham que mudar, não é, Foster?

O homem começara a se desmanchar com as últimas palavras. Cada vez mais prostrado no canto da poltrona, sem reação, ele parecia mingüar ao lembrar de sua amada Dorothy.

— O crime lhe fez mudar. Você foi lentamente corrompido pela própria justiça que decidiu impor. Você viu coisas que lhe fizeram perder muitos dos seus critérios, que lhe fizeram perder o próprio senso do justo. Foi isso que você falou a Dorothy. Mas você nunca soube se ela acreditou, porque ela já tinha outra pessoa quando você pensou em se recuperar. Você a perdeu, detetive. E agora acha que vai resolver tudo se for bater na porta dela lá em Boston.

Foster arregalou os olhos. De repente aquele rosto nobre e voluptuoso ficou mais familiar do que nunca.

— Eu conheço você. Você é Gloria, a amiga de Dorothy! Eu sabia! Você morava no apartamento bem em frente ao nosso. Trezentos e...

— Dois. Exatamente. Não esperava que fosse lembrar de mim – mentiu; aqueles olhos retomaram a grande astúcia, e Foster recuou – Como você costumava dizer mesmo? “O álcool apaga a memória e outras coisas que não me recordo”?

— “Que não me lembro mais”. Piranha. Você me persegue há quanto tempo?

Gloria soltou mais uma de suas risadas curtas e graciosamente irritantes. Pousou finalmente a taça quase vazia na mesinha de centro, sob o olhar atento e irado de Foster. O enorme decote invadia o seu campo de visão enquanto ela se curvava. Voltando a confortar-se em sua poltrona, Evelyn abriu os braços, relaxada, o lindo pescoço totalmente à mostra, confiscado pela luz amarela.

— Você é tão rancoroso, nossa. Comigo você terá que ser diferente se quiser reconquistar pelo menos o respeito de sua amada Dorothy.

— Por que você não vai e conta logo a ela tudo o que eu fiz?

— Não, meu caro detetive. Eu não quero que a verdade apareça por suas costas. Você pode não acreditar, mas eu quero lhe ajudar.

Foster rapidamente respondeu com um som de deboche, disparando saliva por entre os lábios.

— Se você quer ganhar o respeito de Dorothy de novo, você terá que ser sincero e justo, como sempre teve vontade, sem que conseguisse. Você contará a ela o que fez, Foster. Contará tudinho.

— Eu não tenho saída, não é?

— Não. Na verdade, você tem menos saída ainda do que imagina. Porque há mais uma condição para que eu não conte a verdade no seu lugar.

Então, Gloria lentamente ergueu a taça da mesinha e, ainda encarando Foster, derramou sobre os seios o que restara de vinho. Cada gota vermelha dançou por sobre as curvas e escorreu dentro do vale, eriçando minúsculos pêlos nas cercanias dos mamilos que saltavam por debaixo do vestido.

As mãos de Foster se mexeram, inquietas dentro dos bolsos. O homem, ainda suando muito, aprumou-se novamente na poltrona. Fitava cada movimento do vinho por dentro do decote e ao redor dos seios, cada gota escura que maculava pele e vestido, antes tão suaves ao olhar. Por fim, voltava a encarar o azul brilhante ao redor daquelas íris tão femininas, lindíssimas. Um perfume inédito tomava conta do ar.
Gloria deixou cair a taça vazia ao seu lado e agarrou o encosto da poltrona, projetando os seios à frente. A boca, semiaberta, parecia maior e mais suculenta.

— Vamos, detetive. Desde o primeiro segundo eu soube que você me queria.

A expressão de Foster congelara todos os músculos da face. Apenas o suor mantinha-se vivo.

— Vamos, Foster. Se quisesse mesmo acabar comigo, já teria apontado a Colt que tem aí debaixo do casaco. Você é um bom homem. Você errou, mas é um bom homem.

— Você está enganada.

Foster saltou como um gato pra cima de Gloria, pega totalmente de surpresa. Antes que ela sequer pudesse mexer os braços, uma enorme faca foi enterrada em seu pescoço de seda. O homem cerrou os dentes, segurando o máximo que pôde a própria fúria titânica. Assim que a ponta da afiadíssima lâmina atravessou a carne do lado oposto, Foster tirou a mão daquela boca que tanto havia desejado. Puxou a faca com força, admirando o estrago que havia feito no seu inimigo. As cordas vocais, donas de voz tão sensual e ameaçadora, agora pendiam como gordura dentro da garganta aberta. Ele não deixou que ela sequer tivesse a reação típica da luta pela sobrevivência. Segurou os braços de Gloria na mesma posição que estavam, enquanto assistia o sangue se esvair em grandes jorros, banhando de vermelho a poltrona e o corpo tão novo, tão lindo. Focando-se nos belos olhos, agora mais escancarados do que nunca, Foster pôde ver seu reflexo em meio ao azul, que empalidecia. Ao encarar seu próprio sorriso, recuou, assustado. Foi até a porta de correr do quarto e a fechou, passando a chave.

Quando finalmente cessaram os esguichos mais lívidos de sangue, Foster sentiu-se pronto para remover o corpo da poltrona. Puxou o cadáver com rapidez, sem cerimônias, arrastando-o pelos braços até o minúsculo banheiro.

— Você não me queria, vagabunda? Não me queria? – urrava por entre os dentes cada vez mais comprimidos.

Foster a pôs de quatro, apoiando-a na pia, e, no impulso, levantou a saia manchada de vermelho. Ela estava sem calcinha, e ele, excitado já há um bom tempo, não demorou a penetrá-la. Com as mãos contra a pia, o homem se debruçou sobre Gloria e estocou diversas vezes na carne morta, sem resposta, sem outro movimento que não o dele. O gozo mórbido não demorou a chegar, e, assim que um longo arrepio trafegou pela coluna de Foster, ele se deitou sobre o corpo imóvel. Chorou, chorou muito. Por vários minutos ainda misturou suas lágrimas ao sangue de Dorothy, erguendo vez ou outra o olhar para si mesmo no espelho. Quando o nojo decidiu aparecer, Foster se levantou. Contemplava apavorado a obra em vermelho que recém pintara no recinto. Tomou o vinho que restava na taça. Já era tarde.

Ninguém precisou acusá-lo do crime que cometera na Filadélfia horas antes de embarcar no trem para Boston. A arma usada e uma calcinha com o nome de Glória repousavam em suas mãos enquanto ele dormia profundamente em uma das poltronas. Foster era o último passageiro a abandonar a viagem.
O detetive nunca mais viu o rosto de Dorothy. Nunca soube o paradeiro dela, e ninguém veio libertá-lo da cadeia. Alguns dias depois o encontraram pendurado pelo pescoço a um trapo de roupa em sua cela, balançando pra lá e pra cá. No chão, escrevera uma palavra a sangue:

Liberdade.



Renan Santos

Fiat Lux

Desde que fiquei cego deixei de fazer a barba. Primeiro, porque não gosto que passem a navalha em meu rosto. Não por medo. O medo, nesse caso, é até estimulante, pois, talvez por erro de destreza, o barbeador falhe em seu ofício e acabe, sem querer, retirando meus 4 sentidos restantes Segundo, pra não ter ter uma barba mal feita. Se não os vejo, eles me vêem, e mesmo um cego se importa com a aparência.

Todos se revezam em fazer minha barba – desde minha mãe, passando por tios, primos e irmã. De todos eles, o toque mais aprazível é o de minha irmã. Sabia o estado emocional de minha irmã através dos cremes que ela usava no corpo, em especial nos braços. Seu namorado, infelizmente, não percebia esses cheiros, porque estaria preocupado em vê-la. Meus tios, já relativamente idosos, tinham um chiado em seu pulmão que me desagradava. Anos de fumo causavam-me uma dupla sensação de nojo: o cheiro da nicotina impregnado em seus corpos e o chiado perturbador de seus pulmões. Esse som era tão forte para um cego que às vezes pensava que sempre que o telefone tocava haveria uma notícia de câncer no pulmão. O que não ocorreu. Não gosto de enterro. Desde minha cegueira não fui a um enterro. Não desejo que nenhum de meus tios morra. Não suportaria o cheiro de nicotina, formol, flores e o resmungo fingido de minha parentela.

Não sei qual aparência que tenho. Se é repugnante, trágica, cômica ou indiferente ao observador. Além da barba, sei que sou magro. Também cultivo o hábito de tentar lamber meu cotovelo e nessas tentativas deparo-me um braço delgado. Sou magro porque, defecar, para mim, é um suplício. O cheiro de excrementos é repulsivo e desde então tenho evitado comer. É previsível que minha maior atração seja a música. Depois que fiquei cego joguei fora todos meus antigos discos, e, com a indenização eu ganhei da fábrica, passei a ouvir apenas música erudita. Não por esnobismo, mas era a única possível de ser ouvida – além de bem compostas, eram bem executadas. O que não ocorria com o prazer hormonal que tinha ao ouvir rock. Gosto do cheiro de café. O café substituiu o sol para mim. Voltei a morar com meus pais, e sempre que sinto o forte cheiro de café, levanto-me e encontro o bule onde quer que esteja. Apenas o café. O cigarro abandonei, por medo de ter minha barba em chamas. (Ou aquele câncer pulmonar).

Hoje fui caminhar na praça mais próxima. Ouvi alguns trovões, o que me fez procurar algum lugar para ficar. Não gosto de entrar em bares, padarias, ou locais que vendam comida. Não gosto de lojas. O zumzum das mulheres me enerva. Sabia que do outro lado da calçada havia uma igreja, mas gostaria de evitá-la. Não pelo óbvio motivo de culpar a Deus por minha cegueira, mas porque, se há algo insuportável, são os gemidos dos fiéis. Esse gemido anti-erótico, dos cães e dos homens. A chuva caiu. Não pude evitar. Atravessei a rua com auxílio de alguém que cheirava salsicha e purê – um degustador de cachorro-quente, com certeza. Entrei na Igreja. Estava silenciosa; um silêncio tão abissal que parecia o início dos tempos. Sentei-me no primeiro banco que pude encontrar. Sei que as igrejas católicas possuem as cenas da vida de Cristo. Mas não poderia vê-las. Nunca me interessei por religião. Não sou ateu, ou crédulo. A existência ou inexistência de Deus em nada alteraria a minha existência. O que ocorre aqui não é uma fé ou descrença em Deus, mais uma sensação - agora ainda mais forte - da fé e descrença em minha existência. Crer em si mesmo com visão é difícil. Crer em si mesmo, cego, é ainda mais difícil, o que fez daquele silêncio um indício de minha inexistência.

Levantei-me para ouvir meus passos. Pensei que deveria ter saído de casa com sapatos. Os tênis que uso não fazem tanto barulho no chão; já um sapato o faria melhor e eu teria algum som para ouvir dentro dessa Igreja amedrontadora. Não sabia se havia pessoas por perto – então, não poderia bater os pés com força para ser ouvido. Nem a bengala. Pensariam que, além de cego, sou doido.

Não pude agüentar muito tempo – o silêncio me sufocava. Me sufocava de tal forma que desabotoei a jaqueta e comecei, a contragosto, bater com minha bengala no chão. Um homem segurou meus braços, e perguntou “o senhor está se sentido bem?” Disse que tinha asma e que gostaria de tocar em algum santo, ou em uma imagem, qualquer coisa que pudesse me ajudar. Um padre? Os padres têm ar de limpeza externa e impureza moral. Um cego não pode consultar a imundícia moral de ninguém, e minha única constatação era de que o homem tinha excelentes hábitos higiênicos e não tinha o mau gosto de usar perfumes. '”Levanta, vem aqui”. Pedi que ele apenas me conduzisse pelos ombros, sem apertar meu braço. “Tudo bem, vamos andando, é por aqui... “ Segurou meu punho e conduziu-me a algo que pareciam outros ombros. Tateei e percebi que eram as costas de homem de gesso. “São as costas de Cristo”. “Está sentido os ferimentos?” “Ele foi açoitado, está sentido?” “Toque, não tenha medo... está sentindo os ferimentos?”

O escultor dono de um senso de simetria perfeito, fez os açoites parecerem figuras geométricas, não aquelas feridas caóticas onde o sangue respinga desordenado pelas costas do ferido; eram cortes simétricos, unidos. Com a voz embargada o homem disse “aqui... está sentido, são as mãos...” Eram dedos pontudos, com perfurações circulares no centro de suas mãos. Passei todos os dedos sobre a profunda ferida. Era tão verossímil que, sem que o homem percebesse, passei as mãos em minha jaqueta para retirar o sangue. “Aqui são os pés... Jesus agüentou toda essa dor... por nós... “ Pensei que aquele homem queria me impingir a sensação física de dor. E, antes que me mostrasse as outras chagas, hesitei em dizer que a dor moral é ainda mais forte. E que o tapa, um tapa que um escultor não pode representar, é ainda mais doloroso que açoites ou perfurações nas mãos. Engolir um tapa na cara foi uma grande proeza desse deus encarnado. Mas não era uma lição fácil de se ensinar. Envolve um masoquismo que recalcitrantes não aceitaríamos, porque, na maioria das vezes, nosso sadismo prevalece, e talvez o homem de voz embargada acariciasse aquelas chagas para obter... prazer.
“Toque aqui... Aqui está a ferida da lança... “ Coloquei meu indicador dentro da ferida, gostaria que houvesse, ali, um coração pulsante. Era só gesso. E eu pedi para o homem me devolver aos bancos.

“Jesus suportou mais, muito mais, meu jovem”. Cordato, eu disse que sim. Gostaria de pedir vinho para homem. O vinho é sublime. Desde minha cegueira passei a degustar vinhos. Pena que os rótulos não são escritos em braile. Nunca gosto de perguntar qual é o nome do vinho que estou tomando para saber diferenciá-los. A morte de Cristo é uma lição de enofilia. Lembrei-me que ainda havia sangue em meus dedos. Chupei-os. “Jesus teve sede, e lhe deram vinagre”, disse o homem. Sua voz era vibrante, e pensei em apertá-lo, como a uma esponja encharcada com vinagre. Levantei-me e saí.

Na porta da Igreja, ouvi: 'No princípio criou Deus os céus e terra. E disse Deus...', o homem, cuja voz de barítono irrompeu o silêncio palpável do ambiente, arrematou “E disse Deus: haja Luz! E viu Deus que luz era boa”.

A chuva passou. Sabia que havia um sol, que esquentou minha face.


Thiago Cardoso

O Fenômeno

Deus o tocou quando nasceu.

Essa frase, de um famoso jornalista na época do Terceiro Grand Prix Mundial de Xadrez, se tornara popular. E, de tão repetida, o que era lenda já figurava como mito contemporâneo, e o que era mito parecia entrar na História. Franz Hockelheim, o brasileiro com nome de alemão, o homem com cérebro de computador. O nome era imponente, agora mais do que nunca. Contudo, sua preferência seria eternamente pelo jeito que a tia o chamava: Franzino. A alcunha soava depreciativa e zombeteira, ainda mais se levando em conta o metro e meio de altura que portava menos de 40 quilos de carne branca. Mas para ele não existia outro tom que não o de mais puro carinho quando vindo da voz doce e cálida de Tia Adelaide, que lhe criara desde muito pequeno, há mais de três décadas.

Vinte e sete anos atrás ela vira Franzino conquistar seu primeiro campeonato brasileiro de xadrez, sob flashes e aplausos estupefatos. Gritos ecoavam pelo ginásio enquanto o menino prodígio só conseguia prestar atencão às bochechas rosadas e apertadas de alegria de sua tia, que chorava de uma forma que o tocara profundamente, deixando rastros n'uma memória tão vazia de pessoas, de amigos. Ele estava decidido a trazer felicidade e contentamento àqueles olhos sofridos enquanto vivesse, porque talvez fosse a única maneira de agradecer o cuidado tão especial que recebia de Tia Adelaide desde que seus pais haviam abandonado este mundo; se os seus feitos por si não cumprissem tal tarefa, o dinheiro que deles brotava milagroso certamente a cumpriria. Franzino só tinha Adelaide em sua vida, e a amava por todos os outros amores que lhe faltavam até então.

Franzino não acreditava no que diziam dele, não mesmo. Chamavam-no de especial e de quase divino numa época em que as estrelas deste país mais uma vez minguavam, enquanto guerras destroçavam nações em outras partes do mundo. Franz Hockelheim fora tocado por Deus onde ninguém mais sequer se aproximava dEle, era o que se pensava. Pesquisas científicas de diversos centros no planeta estudavam seus hemisférios cerebrais detalhadamente, submetendo-o a exames dos mais variados métodos, muitas vezes chegando a castigar seu frágil corpo. Junto da inteligência suprema, ele havia nascido com uma série de deficiências, desde as glândulas, passando pelo baço e atingindo até a tireóide, dificultando o seu crescimento. Mas o que naquele corpo se destacava era coisa muito distinta: havia uma anomalia impressionante em seus genes. Com quase trinta e seis anos agora, Franzino de fato parecia uma criança aos olhos do mundo, mas seu cérebro apresentava um desenvolvimento que equivalia a 500 anos de aceleradíssima evolução cognitiva, e daí que o estimavam. Através de uma técnica de última tecnologia, houve exames de DNA em parentes de várias linhas e níveis de sua árvore genealógica, e o mais incrível foi terem descoberto traços da mesma anomalia somente em três pessoas: um homem de quinze gerações anteriores, um tataravô e sua tia Adelaide.

Sim, por puro acaso, a Tia Adelaide era uma forma atávica cento e cinqüenta vezes mais branda da anomalia. O dia em que descobriram isso, houve alarde e tumulto para entrevistar a velha senhora, que simplesmente não sabia o que dizer, que não tinha muito a pensar. Por dias a atenção se centrou sobre ela, enquanto Franzino enfrentava um desafio milionário que já tinha meses, um confronto de xadrez com um avançadíssimo supercomputador. Incomodava muito toda aquela pressão dos meios jornalísticos e acadêmicos, agora focada totalmente sobre tia Adelaide. Porém, no fim das contas, ambos concordaram que a notícia viera pra bem, pois assim talvez Franz tivesse mais tempo hábil pra lidar com o desafio, cuja dificuldade crescia cada vez mais.

Era início do inverno quando o placar estava 350 para o homem e 375 para a máquina, depois de 40 partidas de xadrez e 20 de matemática pura. Tia Adelaide adentrava o quarto de seu sobrinho carregando uma bandeja com chá preto e torradas, que sempre estimulavam a mente já exausta do gênio mergulhado na imensa poltrona de couro.

— Se eu fui tocado por Deus, seu chazinho foi feito com água sagrada, tia – brincava ele, cuspindo farelos de torrada.

— Ô, meu querido, que é isso... são só feitos com muito carinho, carinho da sua tia.

— Carinho de mãe – olhou de lado pro rosto redondo e emocionado dela – juro. Não sei como eu poderia vencer um desafio desses sem a senhora por perto.

Tia Adelaide fez um longo e pesado cafuné no cabelo ralo.

— Com o dom que Ele te deu, você pode vencer qualquer desafio.

— Eu sei, todos acreditam no meu dom. Mas pra mim, basta que a senhora acredite em mim. Basta a sua fé, tia.

Ela o abraçou pelo pescoço, beijando sua nuca, enquanto lágrimas escondidas escapavam por entre os sulcos do rosto castigado pelo tempo. Em contraste, a pele lisa e imaculada de Franzino brilhava por sobre o rubor. Ele também chorava, só que dentro d'alma. Por fim, ambos levantaram os olhos pra tela do computador.

— Mas, e então, como está a partida?

— Tô perdendo, tia – Franz fez um muxoxo poucas vezes visto por Tia Adelaide, que arqueou as sombrancelhas, limpando as lágrimas com o braço – esse computadorzinho Sony-Kindermann é o meu melhor inimigo até hoje, não tenha dúvida. Raramente encontro brechas pra explorar. Agora estou parado desde manhã numa nova prova de matemática, tendo problemas com uma função esquisita, que eu nunca vi em computador algum dessa série.

Franzino coçou a nuca, apoiando o queixo na outra mão, olhar novamente fixo na tela, investigando todas as variáveis possíveis. Tia Adelaide se surpreendeu e fez a volta na poltrona para fitar seu sobrinho mais atentamente. Ele tinha algo nos olhos que ela não podia decifrar, era coisa das mais estranhas.

— Está tudo bem, meu filho? Você me parece um pouco longe...

Ele rapidamente virou o olhar pra ela, como se já esperasse a pergunta.

— É, tia... na verdade tem algo me incomodando, sim – falava olhando pro chão, pensativo.

— O que é? Me fala. Nunca te vi incomodado em meio a tantos raciocínios.

— É que o problema é por causa sua...

— Ué, que foi? Eu estou bem, querido.

— Eu sei, mas sabe... me incomoda a senhora ficar se expondo assim pra mídia. Nas últimas duas semanas eu tive o maior período de paz e tranqüilidade desde meus treze anos, tudo bem, mas não queria que isso se desse em troca dessa pressão sobre a senhora.

Tocada, ela acariciou o rosto preocupado de Franzino.

— Ah, meu filho, não se preocupe com isso não. Eu lido bem com essa gente. Pra falar a verdade, acho até divertido. E afinal está te ajudando, não é?

Franzino baixou a cabeça, parecendo de repente muito consternado.

— É... pode ser... Mas não acho que a senhora esteja preparada pra esse caos todo não. Eu sei bem como é, são mais de vinte anos de assédio, tia. Até seitas religiosas vieram atrás de mim, até em conferências de paz eu compareci. Meu Deus, você lembra quando leiloaram a camiseta que eu usei quando venci Sid Aslan?

— Claro, como podia esquecer! Muito eu passei aquela camiseta e agora ela está exposta em uma cúpula de vidro! – riu, sozinha em sua empolgação.

— É, ela poderia nos sustentar por toda a vida, mesmo sem os vários prêmios que ganho. Você me entende, tia? Sabe que estou preocupado agora. Poderia fazer o favor de se expor menos a eles? Acho que vai ser melhor pra todo mundo, principalmente pra senhora.

— Claro, meu filho, claro – ela deu tapinhas no ombro dele – não se preocupe. Vou impedir que essa gente passe sequer do portão. Precisamos mesmo de descanso.

Franzino concordou com a cabeça, sem tanta convicção. Deu um beijo na testa dela e levantou rapidamente o corpo esguio da poltrona, mais disposto, aquecendo novamente o coração de Tia Adelaide.

— Vou lá pegar a manteiga e uma faca. Essas torradinhas ficam muito melhor com manteiga! Não, tia, pode deixar que eu pego, não tem problema.

Ele foi caminhando lentamente, saindo do quarto em direção ao corredor alto e enorme que levava à cozinha. Tia Adelaide ficou ali, escorada na poltrona, admirando seu franzino, tão preocupado, tão generoso com ela. Não demorou muito para que a velha senhora voltasse os olhos cansados à tela do computador, curiosa.

Padrões brancos e verdes se formavam sobre um fundo azul cintilante, com números aleatórios surgindo na linha de baixo. À primeira vista, aquilo pareceu cansar ainda mais seus globos oculares, que recém haviam passado por uma cirurgia contra a catarata. Ela estava prestes a abandonar o olhar dali, quando algo surgiu, fulminante.

Clarões e feixes de luz se espalharam por uma imensa parte de seu cérebro, e ela podia ver grandes descargas e novas sinapses se formando. Neurônios saltaram do escuro mil vezes mais forte, disfarçados em pensamentos e teorias que pululavam, inéditas na mente de Adelaide. Num instante, os livros de aritmética que lera na juventude voltavam à memória e agora pareciam ridículos e infantis, e teoremas apresentados nos últimos tempos no jornal das oito horas soavam patéticos e charlatões, ou ineditamente geniais à sua concepção da realidade. Mais importante do que tudo, as partidas de xadrez do próprio sobrinho, que ela tanto amava e admirava, passaram ao status de banais e simplórias.

Em segundos, Adelaide havia dado um salto quântico dentro de si mesma que quase fritara seu cérebro, e sua visão ganhara novas cores e nenhum padrão na tela cansava mais seus olhos, que viam longe, muito longe, para dentro e para fora do espaço-tempo. Lentamente ela curvou a coluna enrijecida sobre o teclado e digitou cinco números no campo de resposta que piscava, enquanto o colar de rosário balançava em frente à tela azul. Cada tecla era um passo adiante, como a realização de um poder há muito escondido. Não era um traço genético minúsculo, como afirmavam, era o poder puro, a mente suprema se manifestando.

Franzino parou diante da porta com a manteiga e a faca em mãos, quando sua tia apertou finalmente o Enter. No canto esquerdo superior da tela, um placar desceu e os números 350 saltaram para 395, e o nome de Franz Hockelheim ficou verde novamente. O computador falava “Well done” na caixa de diálogo enquanto uma luz verde piscou na máquina de fax à direita da máquina central, e uma folha foi impressa com diversas seqüências de números e códigos. O celular de Franz começou a tocar. Assim que parou, o silêncio engoliu o grande quarto.

Franzino assistira a tudo, estupefato. Assustada e alarmada, sua tia se virou pra falar algo. Mas apenas a boca se movimentava, Tia Adelaide não conseguia falar. Suas mãos tremiam, como se o poder fosse grande demais para controlar, como se a força da mente se somatizasse sem dó. Ou algum outro sentimento estava por trás daquilo.
Para Franzino, sentimento algum importava agora. Ele só conseguia fitar a tela, enquanto adentrava lentamente o quarto, se aproximando da poltrona. A manteiga caiu, pintando de amarelo lustroso o couro e o tapete. Ele se virou para sua tia com os olhos escancarados e as íris minúsculas. Os lábios ameaçavam se mexer.

— Eu... eu... – era só o que tia Adelaide conseguia balbuciar. Então o olhar de Franzino ficou mais agudo, como a ponta da faca que ainda segurava.

Lágrimas começaram a rolar do rosto frágil e estupefato quando ele ergueu a mão e, num movimento muito rápido, deslocou o ar em golpes que jamais se imaginaria que ele tivesse a força física de desferir. A pequena faca entrou muitas vezes no rosto, pescoço e colo da velha senhora, que, sem reação alguma, apenas erguia os braços conforme ia ao chão, banhando-se em sua própria poça de sangue. Estirada, Adelaide ainda segurou o calcanhar do sobrinho, que com uma força descomunal parecia enterrado no tapete. Franz deu então o golpe derradeiro na nuca enrugada.

A faca caiu, e o homem tocado por Deus contemplava com pavor suas pequenas mãos, manchadas de um escarlate fulgurante. E assim lhe encontraram; na mesma posição e feição, com o coração parado, várias horas depois.

Por muitos anos ainda se discutiu o que Franz vira nas mãos. Se fora o temor pelo que acabara de cometer, se fora o dom que ele descobrira não ser tão genuíno.

Para mim, ele simplesmente não queria perder o posto de a mais perfeita máquina criada pela natureza. Ainda bem que eu, a parte mais importante do corpo daquela reles senhora, resisti. Agora, mergulhado neste tubo de suspensão, acho graça desses homens de branco que me admiram.

Não só eles, mas o mundo me contempla. E se rende.

Eu sou Deus.



Renan Santos